Foi em meados de 2016, 2017..comecei minha caminhada
pelos altos graus, ou Ordens de Sabedoria, do Rito Moderno. Eu já era grau 18
do REAA e começava a caminhar em outros ritos . A era das trevas , que
prejudicou tanto a maçonaria brasileira, ainda não havia atingido seu
auge(Seria em 2019) e os grupos de whats app ainda eram dedicados a debates
sobre conhecimento maçônico. Em especial, um grupo do Rito Moderno, muito me
auxiliou.
E foi neste grupo que ouvi pela primeira vez sobre
os manuscritos Francken!
Parecia ser conhecimento comum naquele grupo, mas em
todos os anos de ordem, eu não havia tido contato com o material. Com muito
carinho a atenção eles logo me explicaram a grande importância dos mesmos para
a maçonaria francesa ( e consequentemente para os ritos Moderno,
Adonhiramita e REAA) e para a maçonaria
em geral.
Comecei a estudar a fundo este assunto, e o
resultado é o texto abaixo. Sim, sei que saiu bem longo mas, acreditem, é
apenas uma introdução sobre a origem histórica do REAA!
Antes do texto , aproveito para divulgar meu novo livro eletrônico , Mantras de Atração, Poder e Sabedoria . Os irmãos que se interessarem por filosofia oriental e mantras, podem adquirir o ebook na Amazon pelo preço promocional ( de lançamento) de R$ 9,90 no link abaixo:
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O
Que São os Manuscritos Francken?
Os Manuscritos Francken são uma
série de documentos redigidos na segunda metade do século XVIII por Henry
Andrew Francken, contendo os rituais completos dos graus 4° a 25° do sistema de
altos graus que Étienne Morin havia organizado nas Antilhas francesas. São os
documentos maçônicos mais importantes do período colonial americano e o mais
importante documento relacionado ao Rito Escocês Antigo e Aceito, porque é o
predecessor lineal do Rito. Os rituais deste manuscrito representam sua forma
autêntica no nascimento do Rito Escocês, antes de serem modificados por Carson,
Gourgas, Yates, Pike e outros. Na medida em que os rituais possam ter mudado em
qualquer jurisdição, todos devem sua existência aos rituais deste magnificente
documento.
Em termos simples: sem os
Manuscritos Francken, não existiria o Rito Escocês tal como conhecemos. São a
fonte, o embrião, o ancestral comum de toda a tradição de altos graus que
eventualmente se tornaria o REAA de 33 graus.
O Manuscrito Francken foi compilado
em 1783 por Henry Andrew Francken e é a mais antiga tradução inglesa conhecida
dos rituais de hauts grades franceses do Rito de Perfeição (Ordem do
Real Segredo), do 4° ao 25°. É considerado a mais antiga versão sobrevivente e
mais completa em língua inglesa dos graus do Rito Escocês que apareceram na
América do Norte.
O
Contexto: Paris, Bordéus e os Hauts Grades Franceses
Para compreender os Manuscritos
Francken, é preciso recuar ao ambiente cultural em que surgiram — a França
iluminista do século XVIII, onde a Maçonaria havia se tornado um fenômeno de
elite que rapidamente extrapolou os três graus simbólicos do Craft inglês.
A Grande Loja de Londres havia sido
fundada em 1717, mas os franceses — sempre com seu apetite por hierarquia e
esoterismo — rapidamente começaram a proliferar graus adicionais. Se os altos
graus se originaram na Grã-Bretanha, eles floresceram na França. Em 1732, uma
Loja inglesa chamada Loge L'Anglaise foi fundada em Bordéus, França. Um ramo
desta Loja fundou a Loge Parfaite Harmonie em 1743. Étienne Morin, que se
tornaria importante na história da Maçonaria de alto grau, estava entre os
fundadores da Loge Parfaite Harmonie. Scottish Rite
Este ambiente de Bordéus — cidade
portuária, cosmopolita, com intenso intercâmbio com as colônias do Caribe — foi
o útero onde nasceu o sistema que os Manuscritos Francken documentariam.
Alias, comentem abaixo se querem ver
material sobre a maçonaria no Caribe. È um assunto fascinante e muito
importante para o esoterismo atual.
Étienne
Morin: O Arquiteto do Sistema
Qualquer estudo dos Manuscritos
Francken começa necessariamente com a figura de Étienne Morin, o comerciante
francês que organizou o sistema de 25 graus que Francken transcreveria. É
geralmente aceito que este Rito de vinte e cinco graus foi compilado por
Étienne Morin e é mais propriamente chamado de "Rito do Real Segredo"
ou "Rito de Morin".
Em 1761, em Paris, foi emitida uma
patente para Étienne Morin, datada de 27 de agosto, criando-o "Grande
Inspetor para todas as partes do Novo Mundo". Esta Patente foi assinada
por oficiais da Grande Loja de Paris. Cópias posteriores da Patente parecem ter
sido adulteradas, provavelmente pelo próprio Morin, para melhorar sua posição
sobre as Lojas de altos graus nas Antilhas.
Esta é uma das primeiras grandes
revelações historiográficas sobre o REAA: há evidências convincentes de que
Morin criou e antedatou documentos conhecidos como as Constituições e
Regulamentos de 1762 — um ato que não foi descoberto por mais de 220 anos. O
próprio Morin, portanto, construiu sua autoridade em parte sobre documentos que
ele mesmo forjou ou adulterou. Este fato, descoberto pela pesquisa
contemporânea, não invalida os rituais que ele organizou — mas lança uma luz de
complexidade sobre as origens institucionais do Rito.
Há evidências crescentes de que
Morin tomou quaisquer altos graus que havia recebido na França e os refashionou
no Rito do Real Segredo, criando graus adicionais conforme necessário. Morin
era menos um transmissor fiel de uma tradição recebida e mais um criador que
sintetizou e organizou materiais dispersos num sistema coerente. O próprio
REAA, portanto, foi desde o início uma obra criativa tanto quanto uma herança.
Henry
Andrew Francken: O Homem
Henry Andrew Francken nasceu na
Holanda por volta de 1720 — Hendrick Andriese Franken no batismo — e chegou à
Jamaica em 1757. Francken foi ao Jamaica onde se tornou súdito britânico
naturalizado. Em algum momento nessa época, Francken conheceu Stephen Morin,
que lhe comunicou os graus do quarto ao décimo quarto. Por 1762, Francken
estava empregado no governo, ocupando posições como marechal e sargento do
tribunal de vice-almirantado.
O encontro com Morin — que estava de
passagem pela Jamaica em seu caminho para Santo Domingo — foi um dos momentos
mais consequentes da história maçônica. Em 1763, Étienne Morin passou pela
Jamaica a caminho de Santo Domingo e teve sua primeira oportunidade de
encontrar Francken.
Francken não era simplesmente um
copista. Era um maçom de profundas convicções, fluente em pelo menos três
línguas (holandês, inglês e francês), com experiência burocrática e jurídica, e
com clara vocação para a organização e disseminação do sistema. Nos anos
seguintes, Francken tornou-se profundamente envolvido com a Maçonaria, fazendo
viagens até Nova York em negócios maçônicos. Em 1771, ele transcreveu a
primeira cópia datada de seu manuscrito.
Francken morreu em 20 de maio de
1795, deixando um filho e uma filha. Seu legado — os manuscritos — sobreviveu a
ele por mais de dois séculos.
Os
Manuscritos: Quantos São, Onde Estão, o Que Contêm
O plural "Manuscritos
Francken" é deliberado: não existe um único manuscrito, mas uma família de
documentos intimamente relacionados produzidos por Francken em diferentes datas
e circunstâncias.
O Manuscrito de 1771:
Francken trabalhou proximamente com Morin e, em 1771, produziu um manuscrito
dando os rituais do 15° ao 25°. Este é o primeiro manuscrito datado. Contém
apenas os graus capitulares e os graus superiores — os 12 graus mais elevados
do sistema de 25.
O Manuscrito de 1783 — O Mais
Importante:
A cópia de 1783, propriedade do Supremo Conselho da Jurisdição Norte dos EUA, é
a mais completa e mais conhecida. É uma das quatro conhecidas existir. Este
manuscrito cobre todos os 25 graus, do 4° ao 25°, e inclui além dos rituais os
regulamentos para o governo da Loja de Perfeição. É uma cópia completa do
melhor manuscrito de Francken, e é o único documento mais importante
relacionado ao Rito Escocês Antigo e Aceito.
O Manuscrito de Lancashire
(~1783-86):
Um terceiro manuscrito de data incerta, escrito na caligrafia de Francken, com
os rituais do 4° ao 25°, foi encontrado nos arquivos da Grande Loja Provincial
de Lancashire em Liverpool aproximadamente em 1984. Este manuscrito permaneceu
camuflado por décadas sob o título "Rite of Twenty-Five Degrees"
antes de ser identificado.
O Manuscrito do Punjab (~1783-86):
Um quarto manuscrito de data incerta, com rituais do 4° ao 24°, era conhecido
por ter sido dado por H. J. Whymper à Grande Loja Distrital do Punjab e
redescoberto por volta de 2010.
O Manuscrito de 1769-1770
(Jamaicano):
Os manuscritos de 1769 e 1770 contêm cadernos com os graus 9°, 10°, 11°, 12°;
14°; 15°; 16°; 17°; 18°, 22°; 19°, 20°; 21°; 24°; além de um manual do Tyler
para o 4°-24°. Uma carta de 6 de julho de 1769 de Francken ao seu deputado
Moses Michael Hays confirma absolutamente que a fonte ritual de Francken é
Morin: "Posso dizer com candura que o estilo dos graus ainda não tendo
sido completado pelo Irmão Morin, estou obrigado a torná-los o mais cuidadosa e
completamente possível."
Esta carta de 1769 é um documento
histórico de extraordinária importância: Francken admite diretamente que estava
completando os rituais porque Morin ainda não os havia finalizado. O sistema,
portanto, era genuinamente um work-in-progress quando Francken começou a
transcrevê-lo.
O
Conteúdo: O Sistema de 25 Graus
Os Manuscritos Francken documentam o
que era o sistema original de 25 graus — o chamado Rito de Perfeição ou Ordem
do Real Segredo — antes de sua expansão para 33 graus em 1801. Este sistema
distribuía-se da seguinte forma:
Loja de Perfeição (Graus 4° a 14°): Do Mestre Secreto (4°) ao Perfeito e Sublime Maçom (14°).
Estes graus permanecem essencialmente os mesmos na transição para o REAA de 33
graus.
Câmara Capitular (Graus 15° a 17°): Cavaleiro do Oriente, Príncipe de Jerusalém, Cavaleiro do
Oriente e do Ocidente.
Capítulo Rosa-Cruz (Grau 18°): Cavaleiro Rosa-Cruz — que já no sistema original de 25
graus era considerado o ponto de virada central.
E na minha humilde opinião, ainda é.
Este texto já está longo, mas posso dizer que em questões de influencias espirituais e caminho para iniciação verdadeira, este
é o ultimo grau maçônico dos ditos graus superiores. Friso: minha opinião.
Graus de 19° a 24°: Uma série de graus que no sistema de Francken tinham
diferentes posições e nomes em relação ao REAA moderno.
O Grau 25° — O Sublime Príncipe do
Real Segredo: O grau mais elevado do sistema era
o "Sublime Príncipe do Real Segredo", e Francken organizou esses hauts
grades num rito maçônico. Este grau, que hoje é o 32° do REAA, era
originalmente o ápice de todo o sistema.
Os Graus Destacados (Apêndice): Também incluídos estão os graus destacados de Mestre
Selecionado do 27°, Cavaleiro do Arco Real e Grande Mestre Ecosse, que
apareceram no final do manuscrito original. Estes graus aparecem como material
adicional, não integrado ao sistema principal de 25.
A
Jornada de Jamaica a Albany: Como o Sistema Chegou à América do Norte
A trajetória dos Manuscritos
Francken é ao mesmo tempo uma história de burocracia colonial, de ambições
pessoais e de genuína devoção iniciática.
Morin empoderou um entusiasmado
Maçom holandês, Henry Andrew Francken, para estabelecer Corpos Maçônicos por
todo o Novo Mundo. Francken logo navigou para Nova York, e em 1767 começou a
conferir os altos graus em Albany. Fortunosamente, ele também transcreveu
várias cópias manuscritas dos rituais da Ordem do Real Segredo, algumas das
quais sobrevivem hoje.
Francken viajou para Nova York em
1767, onde concedeu uma Patente datada de 26 de dezembro de 1767 para a
formação de uma Loja de Perfeição em Albany, chamada "Ineffable Lodge of
Perfection". Esta foi a primeira Loja de altos graus na costa leste da
América do Norte.
A importância desta fundação em
Albany é difícil de superestimar: em 1767 Francken autorizou uma "Loja de
Perfeição" em Albany, Nova York, e as sementes da Maçonaria do Rito
Escocês foram plantadas na Costa Leste. Por volta de 1800, cerca de cinquenta
homens haviam sido nomeados Inspetores Deputados, e vários resolveram
estabelecer um Supremo Conselho.
A cadeia de transmissão depois de
Albany é igualmente fascinante: enquanto estava em Nova York, Francken também
comunicou os graus a Moses Michael Hays, um comerciante judeu, e o nomeou como
Inspetor Geral Deputado. Em 1781, Hays fez oito Inspetores Gerais Deputados,
quatro dos quais foram mais tarde importantes no estabelecimento da Maçonaria
do Rito Escocês na Carolina do Sul: Isaac Da Costa Sr., D.I.G. para a Carolina
do Sul; Abraham Forst, D.I.G. para a Virgínia; Joseph M. Myers, D.I.G. para
Maryland; Barend M. Spitzer, D.I.G. para a Geórgia.
Moses Michael Hays — um judeu
sefardita de origem holandesa — é uma das figuras mais fascinantes desta
história: ele recebeu os graus de Francken e foi o principal veículo de sua
disseminação pelo litoral americano. O papel dos judeus sefarditas das Antilhas
na transmissão dos altos graus para a América do Norte é um capítulo ainda
insuficientemente estudado da história do REAA.
Da Costa retornou a Charleston,
Carolina do Sul, onde estabeleceu a "Sublime Grande Loja de
Perfeição" em fevereiro de 1783. Após a morte de Da Costa em novembro de
1783, Hays nomeou Myers como seu sucessor. Junto com Forst e Spitzer, Myers criou
corpos adicionais de alto grau em Charleston.
Esta rede de Charleston — fundada
diretamente nos graus que Francken havia transmitido — seria o núcleo do qual
emergiu o Supremo Conselho de 1801.
O
Elo Perdido: Do Sistema de 25 para o Sistema de 33
Quando o Supremo Conselho de
Charleston foi fundado em 31 de maio de 1801, ele não adotou simplesmente o
sistema de 25 graus de Francken/Morin. Acrescentou oito graus novos para criar
um sistema de 33. Os fundadores do Rito Escocês Antigo e Aceito ampliaram esse
sistema, introduzindo oito novos Graus e sobrepondo ao de Príncipe do Real
Segredo, transformado no Grau 32, as funções do Soberano Grande Inspetor Geral,
33° e último Grau da Ordem.
O sistema original de Francken termina onde hoje está o grau 32°. Os graus 26° a 30° (na numeração atual) foram acrescentados na transição — e o grau 33° foi criado como grau administrativo de supervisão. A cadeia genealógica é portanto:
Graus 4°-25° de Morin/Francken → absorvidos como graus 4°-32° do REAA (com renumeração e expansão) → encabeçados pelo grau 33° criado em Charleston.
Os rituais deste manuscrito representam sua forma autêntica no nascimento do Rito Escocês, antes de serem modificados por Carson, Gourgas, Yates, Pike, etc.
O
Significado Ritual: O Que os Manuscritos Revelam
A análise comparativa dos
Manuscritos Francken com os rituais modernos do REAA revela algo
fundamentalmente importante sobre como a tradição evolui.
A principal diferença é que há um
arco narrativo maior nos rituais com uma conexão mais clara com os três
primeiros graus da Maçonaria. Os rituais de Francken são mais diretamente
conectados à lenda de Hiram e à tradição do Craft Masonry — o que se perdeu parcialmente
nas revisões subsequentes de Pike e outros.
Muitos elementos do ritual de
Francken, em forma modernizada, continuam fazendo parte do ritual atual. Após a
abertura e recepção, o exame revisava as palavras, sinais e lições dos graus
precedentes da Loja de Perfeição. Isso era seguido pela investigação
confessional, a obrigação, a unção, a apresentação do anel, o juramento de
amizade ou aroba, um compartilhamento simbólico de pão e vinho, e a
investidura. Não mais em uso está a conferência histórica que traçava a
história de Israel desde o reinado de Salomão e uma história lendária da
Maçonaria até as Cruzadas e os Cavaleiros de São João — que representava dois
terços das 39 páginas manuscritas que Francken dedicou ao 14°.
Este exemplo do 14° é revelador: o
Francken original dedicava dois terços do grau mais longo (39 páginas!) a uma
narrativa histórico-lendária que conectava o Templo de Salomão, o exílio
babilônico, e as Cruzadas numa única linha contínua. Pike cortou a maior parte
desta narrativa e reescreveu o grau com foco filosófico. O que se ganhou em
coerência filosófica, se perdeu em continuidade histórica.
A escada mística — símbolo central
do grau 30° (Cavaleiro Kadosh) no REAA moderno — aparece nos Manuscritos
Francken já associada ao 24° grau: o estudioso Alain Bernheim encontrou
evidências de que este grau, completo com uma ilustração da escada, originou-se
na França em 1750. O Manuscrito Francken de 1783, que data de 1783, também
inclui uma ilustração da escada com o texto do 24° grau, então intitulado
"Grande Cavaleiro Eleito do Kadosh ou Cavaleiro da Águia Branca e
Negra".
Isto significa que o grau 30°
moderno do REAA — o Cavaleiro Kadosh — estava originalmente na posição 24° no
sistema de 25 graus, e carregava a mesma escada simbólica que ainda hoje é seu
elemento central.
A
Proveniência do Manuscrito de 1783: Uma História de Custody
A história da custódia do Manuscrito
de 1783 é tão fascinante quanto o documento em si.
Muitas pessoas que ouviram falar do
Manuscrito Francken de 1783 presumem que o Supremo Conselho o possui desde sua
criação em 1813. Na verdade, foi somente em 1935 que o Supremo Conselho passou
a possuir o manuscrito.
Por mais de um século após a
fundação do Supremo Conselho da Jurisdição Norte, o documento mais importante
de sua história estava em mãos privadas. A primeira menção conhecida de um
Manuscrito Francken foi publicada em 'The Freemasons' Monthly Magazine',
Londres, 1 de agosto de 1855. Um correspondente descrevia um curioso livro
manuscrito que havia encontrado — e historiadores maçônicos demoraram décadas
para identificá-lo como um Manuscrito Francken.
O manuscrito chegou à Escócia
através de Frederick Broughton, iniciado em 1855, que provavelmente o adquiriu
logo após sua iniciação e o trouxe de volta à Grã-Bretanha. Parece que Francken
preparou e provavelmente vendeu esses manuscritos a Oficiais Britânicos, já que
todos terminaram na Grã-Bretanha, a maioria passando pela Escócia — eles não
permaneceram com as Lojas de Perfeição. Francken, portanto, comercializava
cópias de seus rituais como uma fonte de renda — e estas cópias acabaram
migrando para a Grã-Bretanha com os oficiais coloniais que retornavam.
A
Publicação Sancionada de 2017
Em 2017, o Supremo Conselho da
Jurisdição Norte dos EUA publicou a edição sancionada e definitiva do
Manuscrito de 1783 — um volume de 720 páginas contendo facsímile fotográfico
completo, transcrição anotada e três ensaios introdutórios. Esta obra
magnificamente apresentada permite que os leitores vejam com clareza o que
poderiam ter encontrado há quase 250 anos.
Esta publicação representou um gesto
de transparência histórica notável para uma organização cujos rituais eram
considerados secretos: ao publicar a forma original dos graus, o Supremo
Conselho revelou tanto as origens quanto a evolução da tradição. O que torna
isso tão importante é que são os precursores do Rito Escocês em sua forma mais
original, antes que Carson, Gourgas, Yates, Pike e outros colocassem as mãos
neles e começassem a reescrever.
Albert
Pike e a Transformação dos Rituais de Francken
Nenhuma análise dos Manuscritos
Francken seria completa sem abordar a figura de Albert Pike (1809-1891) — o
grande arquiteto da versão moderna do REAA — e sua relação com a herança de
Francken.
Pike recebeu os rituais do REAA nos
anos 1850 e passou décadas reescrevendo-os completamente. Sua obra monumental Moral
e Dogma (1871) é essencialmente um comentário filosófico expandido aos
graus que Francken havia transcrito. Mas Pike transformou profundamente os
rituais em si, não apenas os comentou.
Pike elaborou grandemente e
apresentou em forma mais dramática toda a série de graus, e em essência seu
ritual foi o adotado após a União de 1867 e usado nesta jurisdição por mais de
um século. A revisão de Pike trouxe profundidade filosófica considerável —
especialmente nos graus herméticos e gnósticos — mas também truncou muita da
narrativa histórica que Francken havia preservado.
Os rituais deste manuscrito
representam sua forma autêntica no nascimento do Rito Escocês, antes de serem
modificados por Carson, Gourgas, Yates, Pike, etc. Na medida em que os rituais
possam ter mudado em qualquer jurisdição, todos devem sua existência aos
rituais deste magnificente documento.
O debate entre os puristas que
preferem a versão de Francken e os que defendem a elaboração de Pike continua
vivo na Maçonaria contemporânea. Nas palavras do ex-Soberano Grande Comendador
da Jurisdição Norte Melvin Maynard Johnson, citadas criticamente por um
historiador maçônico: "Se o tempo chegar em que o Rito Escocês determine
permanecer estático, quando sua filosofia não possa ser ajustada às
necessidades de um mundo em mudança, então será a hora de suas exéquias. Até
então, seus líderes nunca devem abandonar o estudo da filosofia de seus
ensinamentos rituais que, por reconstrução e revisão, possa manter-se na
vanguarda da civilização avançada."
A
Rede Sefardita e o Papel dos Judeus na Transmissão
Um dos aspectos mais
insuficientemente reconhecidos da história dos Manuscritos Francken é o papel
central que judeus sefarditas desempenharam na transmissão do sistema de altos
graus para a América do Norte.
Moses Michael Hays, que recebeu os
graus de Francken em Nova York em 1768 e se tornou o principal veículo de sua
disseminação, era descendente de judeus sefarditas holandeses. Os quatro
Inspetores Deputados que Hays nomeou em 1781 — Da Costa, Forst, Myers e Spitzer
— tinham origens similares. Isaac Da Costa, que fundou a Sublime Grande Loja de
Perfeição em Charleston em 1783, era sefardita.
Esta rede sefardita — comerciantes
cosmopolitas com fluxo livre entre as Antilhas, a América do Norte e a Europa —
foi o principal canal de transmissão dos altos graus do mundo francês para o
mundo anglófono. Sem esta rede, os rituais que Francken havia copiado em
Kingston poderiam ter permanecido confinados às ilhas do Caribe.
O
Legado: De Francken a Charleston, de Charleston ao Mundo
A linha genealógica é clara e
documentada:
Bordéus (1743-1761) — Morin funda a Loge Parfaite Harmonie e acumula acesso aos
hauts grades franceses.
Paris (1761) — Morin recebe patente como Grande Inspetor do Novo Mundo.
Kingston, Jamaica (1763-1769) — Morin transmite o sistema a Francken. Francken começa a
transcrever os rituais.
Albany, Nova York (1767) — Francken funda a primeira Loja de Perfeição na costa
leste americana.
Nova York (1768) — Francken nomeia Moses Michael Hays como Inspetor Geral
Deputado.
Philadelphia e Charleston
(1781-1783) — A rede de Hays establece as
primeiras estruturas do Rito no sul dos EUA.
Charleston (31 de maio de 1801) — Fundação do Supremo Conselho, "Mother Council of the
World", integrando e expandindo o sistema de Francken de 25 para 33 graus.
Todos os corpos regulares do Rito
Escocês hoje derivam sua herança deste corpo. Subsequentemente, outros Supremos
Conselhos foram formados em Santo Domingo em 1802, na França em 1804, na Itália
em 1805, e na Espanha em 1811.
O Rito Escocês Antigo e Aceito —
hoje praticado em dezenas de países e centenas de jurisdições em todo o mundo —
remonta diretamente aos cadernos manuscritos que Francken preparou em sua casa
em Kingston no final do século XVIII.
Síntese:
O que os Manuscritos Francken Nos Dizem Sobre o REAA
Os Manuscritos Francken revelam
verdades fundamentais sobre a natureza do Rito Escocês que muitas vezes são
obscurecidas pela aura de antiguidade que envolve o sistema:
1. O REAA é uma criação histórica
datável e localizada. Não emergiu das brumas do Egito
Antigo nem dos Mistérios de Elêusis, mas de um ambiente específico — a
Maçonaria de hauts grades francesa dos anos 1740-1760 — e de pessoas
identificáveis: Morin, Francken, Hays, Da Costa.
2. O sistema original era de 25
graus, não 33. Os oito graus adicionados em 1801
em Charleston foram inovações — criações deliberadas de um grupo de maçons que
buscavam organizar o caos de graus dispersos.
3. Os rituais sempre estiveram em
evolução. Francken completava graus que Morin
não havia finalizado. Carson, Gourgas e Yates revisaram os rituais de Francken.
Pike reescreveu quase tudo. As revisões de 1979-2000 atualizaram Pike. A
"tradição" imemorial do REAA é uma construção que se formou ao longo
de décadas de trabalho criativo consciente.
4. A diversidade cultural foi um
elemento constitutivo desde o início.
O sistema foi transmitido por um francês (Morin) a um holandês (Francken), que
o transmitiu a judeus sefarditas (Hays, Da Costa), que o estabeleceram numa
colônia inglesa (Charleston). Esta pluralidade está inscrita no DNA do Rito.
5. Os Manuscritos Francken são a
âncora histórica mais confiável que temos.
Enquanto as "Constituições de 1762" e as "Grandes Constituições
de 1786" são em grande parte falsificações ou documentos de autoridade
retroativamente construídos, os manuscritos de rituais são registros diretos de
práticas vivas — e este é precisamente o seu valor inestimável para a história
e para a prática contemporânea do Rito.




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