segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Os Manuscritos Francken — A Certidão de Nascimento do Rito Escocês

 


Foi em meados de 2016, 2017..comecei minha caminhada pelos altos graus, ou Ordens de Sabedoria, do Rito Moderno. Eu já era grau 18 do REAA e começava a caminhar em outros ritos . A era das trevas , que prejudicou tanto a maçonaria brasileira, ainda não havia atingido seu auge(Seria em 2019) e os grupos de whats app ainda eram dedicados a debates sobre conhecimento maçônico. Em especial, um grupo do Rito Moderno, muito me auxiliou.

E foi neste grupo que ouvi pela primeira vez sobre os manuscritos Francken!

Parecia ser conhecimento comum naquele grupo, mas em todos os anos de ordem, eu não havia tido contato com o material. Com muito carinho a atenção eles logo me explicaram a grande importância dos mesmos para a maçonaria francesa ( e consequentemente para os ritos Moderno, Adonhiramita  e REAA) e para a maçonaria em geral.

Comecei a estudar a fundo este assunto, e o resultado é o texto abaixo. Sim, sei que saiu bem longo mas, acreditem, é apenas uma introdução sobre a origem histórica do REAA!

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O Que São os Manuscritos Francken?

Os Manuscritos Francken são uma série de documentos redigidos na segunda metade do século XVIII por Henry Andrew Francken, contendo os rituais completos dos graus 4° a 25° do sistema de altos graus que Étienne Morin havia organizado nas Antilhas francesas. São os documentos maçônicos mais importantes do período colonial americano e o mais importante documento relacionado ao Rito Escocês Antigo e Aceito, porque é o predecessor lineal do Rito. Os rituais deste manuscrito representam sua forma autêntica no nascimento do Rito Escocês, antes de serem modificados por Carson, Gourgas, Yates, Pike e outros. Na medida em que os rituais possam ter mudado em qualquer jurisdição, todos devem sua existência aos rituais deste magnificente documento.

Em termos simples: sem os Manuscritos Francken, não existiria o Rito Escocês tal como conhecemos. São a fonte, o embrião, o ancestral comum de toda a tradição de altos graus que eventualmente se tornaria o REAA de 33 graus.

O Manuscrito Francken foi compilado em 1783 por Henry Andrew Francken e é a mais antiga tradução inglesa conhecida dos rituais de hauts grades franceses do Rito de Perfeição (Ordem do Real Segredo), do 4° ao 25°. É considerado a mais antiga versão sobrevivente e mais completa em língua inglesa dos graus do Rito Escocês que apareceram na América do Norte.





O Contexto: Paris, Bordéus e os Hauts Grades Franceses

Para compreender os Manuscritos Francken, é preciso recuar ao ambiente cultural em que surgiram — a França iluminista do século XVIII, onde a Maçonaria havia se tornado um fenômeno de elite que rapidamente extrapolou os três graus simbólicos do Craft inglês.

A Grande Loja de Londres havia sido fundada em 1717, mas os franceses — sempre com seu apetite por hierarquia e esoterismo — rapidamente começaram a proliferar graus adicionais. Se os altos graus se originaram na Grã-Bretanha, eles floresceram na França. Em 1732, uma Loja inglesa chamada Loge L'Anglaise foi fundada em Bordéus, França. Um ramo desta Loja fundou a Loge Parfaite Harmonie em 1743. Étienne Morin, que se tornaria importante na história da Maçonaria de alto grau, estava entre os fundadores da Loge Parfaite Harmonie. Scottish Rite

Este ambiente de Bordéus — cidade portuária, cosmopolita, com intenso intercâmbio com as colônias do Caribe — foi o útero onde nasceu o sistema que os Manuscritos Francken documentariam.

Alias, comentem abaixo se querem ver material sobre a maçonaria no Caribe. È um assunto fascinante e muito importante para o esoterismo atual.


Étienne Morin: O Arquiteto do Sistema

Qualquer estudo dos Manuscritos Francken começa necessariamente com a figura de Étienne Morin, o comerciante francês que organizou o sistema de 25 graus que Francken transcreveria. É geralmente aceito que este Rito de vinte e cinco graus foi compilado por Étienne Morin e é mais propriamente chamado de "Rito do Real Segredo" ou "Rito de Morin".

Em 1761, em Paris, foi emitida uma patente para Étienne Morin, datada de 27 de agosto, criando-o "Grande Inspetor para todas as partes do Novo Mundo". Esta Patente foi assinada por oficiais da Grande Loja de Paris. Cópias posteriores da Patente parecem ter sido adulteradas, provavelmente pelo próprio Morin, para melhorar sua posição sobre as Lojas de altos graus nas Antilhas.

Esta é uma das primeiras grandes revelações historiográficas sobre o REAA: há evidências convincentes de que Morin criou e antedatou documentos conhecidos como as Constituições e Regulamentos de 1762 — um ato que não foi descoberto por mais de 220 anos. O próprio Morin, portanto, construiu sua autoridade em parte sobre documentos que ele mesmo forjou ou adulterou. Este fato, descoberto pela pesquisa contemporânea, não invalida os rituais que ele organizou — mas lança uma luz de complexidade sobre as origens institucionais do Rito.

Há evidências crescentes de que Morin tomou quaisquer altos graus que havia recebido na França e os refashionou no Rito do Real Segredo, criando graus adicionais conforme necessário. Morin era menos um transmissor fiel de uma tradição recebida e mais um criador que sintetizou e organizou materiais dispersos num sistema coerente. O próprio REAA, portanto, foi desde o início uma obra criativa tanto quanto uma herança.


Henry Andrew Francken: O Homem

Henry Andrew Francken nasceu na Holanda por volta de 1720 — Hendrick Andriese Franken no batismo — e chegou à Jamaica em 1757. Francken foi ao Jamaica onde se tornou súdito britânico naturalizado. Em algum momento nessa época, Francken conheceu Stephen Morin, que lhe comunicou os graus do quarto ao décimo quarto. Por 1762, Francken estava empregado no governo, ocupando posições como marechal e sargento do tribunal de vice-almirantado.

O encontro com Morin — que estava de passagem pela Jamaica em seu caminho para Santo Domingo — foi um dos momentos mais consequentes da história maçônica. Em 1763, Étienne Morin passou pela Jamaica a caminho de Santo Domingo e teve sua primeira oportunidade de encontrar Francken.

Francken não era simplesmente um copista. Era um maçom de profundas convicções, fluente em pelo menos três línguas (holandês, inglês e francês), com experiência burocrática e jurídica, e com clara vocação para a organização e disseminação do sistema. Nos anos seguintes, Francken tornou-se profundamente envolvido com a Maçonaria, fazendo viagens até Nova York em negócios maçônicos. Em 1771, ele transcreveu a primeira cópia datada de seu manuscrito.

Francken morreu em 20 de maio de 1795, deixando um filho e uma filha. Seu legado — os manuscritos — sobreviveu a ele por mais de dois séculos.


Os Manuscritos: Quantos São, Onde Estão, o Que Contêm

O plural "Manuscritos Francken" é deliberado: não existe um único manuscrito, mas uma família de documentos intimamente relacionados produzidos por Francken em diferentes datas e circunstâncias.

O Manuscrito de 1771:
Francken trabalhou proximamente com Morin e, em 1771, produziu um manuscrito dando os rituais do 15° ao 25°. Este é o primeiro manuscrito datado. Contém apenas os graus capitulares e os graus superiores — os 12 graus mais elevados do sistema de 25.

O Manuscrito de 1783 — O Mais Importante:
A cópia de 1783, propriedade do Supremo Conselho da Jurisdição Norte dos EUA, é a mais completa e mais conhecida. É uma das quatro conhecidas existir. Este manuscrito cobre todos os 25 graus, do 4° ao 25°, e inclui além dos rituais os regulamentos para o governo da Loja de Perfeição. É uma cópia completa do melhor manuscrito de Francken, e é o único documento mais importante relacionado ao Rito Escocês Antigo e Aceito.

O Manuscrito de Lancashire (~1783-86):
Um terceiro manuscrito de data incerta, escrito na caligrafia de Francken, com os rituais do 4° ao 25°, foi encontrado nos arquivos da Grande Loja Provincial de Lancashire em Liverpool aproximadamente em 1984. Este manuscrito permaneceu camuflado por décadas sob o título "Rite of Twenty-Five Degrees" antes de ser identificado.

O Manuscrito do Punjab (~1783-86):
Um quarto manuscrito de data incerta, com rituais do 4° ao 24°, era conhecido por ter sido dado por H. J. Whymper à Grande Loja Distrital do Punjab e redescoberto por volta de 2010.

O Manuscrito de 1769-1770 (Jamaicano):
Os manuscritos de 1769 e 1770 contêm cadernos com os graus 9°, 10°, 11°, 12°; 14°; 15°; 16°; 17°; 18°, 22°; 19°, 20°; 21°; 24°; além de um manual do Tyler para o 4°-24°. Uma carta de 6 de julho de 1769 de Francken ao seu deputado Moses Michael Hays confirma absolutamente que a fonte ritual de Francken é Morin: "Posso dizer com candura que o estilo dos graus ainda não tendo sido completado pelo Irmão Morin, estou obrigado a torná-los o mais cuidadosa e completamente possível."

Esta carta de 1769 é um documento histórico de extraordinária importância: Francken admite diretamente que estava completando os rituais porque Morin ainda não os havia finalizado. O sistema, portanto, era genuinamente um work-in-progress quando Francken começou a transcrevê-lo.


O Conteúdo: O Sistema de 25 Graus

Os Manuscritos Francken documentam o que era o sistema original de 25 graus — o chamado Rito de Perfeição ou Ordem do Real Segredo — antes de sua expansão para 33 graus em 1801. Este sistema distribuía-se da seguinte forma:

Loja de Perfeição (Graus 4° a 14°): Do Mestre Secreto (4°) ao Perfeito e Sublime Maçom (14°). Estes graus permanecem essencialmente os mesmos na transição para o REAA de 33 graus.

Câmara Capitular (Graus 15° a 17°): Cavaleiro do Oriente, Príncipe de Jerusalém, Cavaleiro do Oriente e do Ocidente.

Capítulo Rosa-Cruz (Grau 18°): Cavaleiro Rosa-Cruz — que já no sistema original de 25 graus era considerado o ponto de virada central.

E na minha humilde opinião, ainda é. Este texto já está longo, mas posso dizer que em questões de influencias espirituais e caminho para iniciação verdadeira, este é o ultimo grau maçônico dos ditos graus superiores. Friso: minha opinião.

Graus de 19° a 24°: Uma série de graus que no sistema de Francken tinham diferentes posições e nomes em relação ao REAA moderno.

O Grau 25° — O Sublime Príncipe do Real Segredo: O grau mais elevado do sistema era o "Sublime Príncipe do Real Segredo", e Francken organizou esses hauts grades num rito maçônico. Este grau, que hoje é o 32° do REAA, era originalmente o ápice de todo o sistema.

Os Graus Destacados (Apêndice): Também incluídos estão os graus destacados de Mestre Selecionado do 27°, Cavaleiro do Arco Real e Grande Mestre Ecosse, que apareceram no final do manuscrito original. Estes graus aparecem como material adicional, não integrado ao sistema principal de 25.


A Jornada de Jamaica a Albany: Como o Sistema Chegou à América do Norte



A trajetória dos Manuscritos Francken é ao mesmo tempo uma história de burocracia colonial, de ambições pessoais e de genuína devoção iniciática.

Morin empoderou um entusiasmado Maçom holandês, Henry Andrew Francken, para estabelecer Corpos Maçônicos por todo o Novo Mundo. Francken logo navigou para Nova York, e em 1767 começou a conferir os altos graus em Albany. Fortunosamente, ele também transcreveu várias cópias manuscritas dos rituais da Ordem do Real Segredo, algumas das quais sobrevivem hoje.

Francken viajou para Nova York em 1767, onde concedeu uma Patente datada de 26 de dezembro de 1767 para a formação de uma Loja de Perfeição em Albany, chamada "Ineffable Lodge of Perfection". Esta foi a primeira Loja de altos graus na costa leste da América do Norte.

A importância desta fundação em Albany é difícil de superestimar: em 1767 Francken autorizou uma "Loja de Perfeição" em Albany, Nova York, e as sementes da Maçonaria do Rito Escocês foram plantadas na Costa Leste. Por volta de 1800, cerca de cinquenta homens haviam sido nomeados Inspetores Deputados, e vários resolveram estabelecer um Supremo Conselho.

A cadeia de transmissão depois de Albany é igualmente fascinante: enquanto estava em Nova York, Francken também comunicou os graus a Moses Michael Hays, um comerciante judeu, e o nomeou como Inspetor Geral Deputado. Em 1781, Hays fez oito Inspetores Gerais Deputados, quatro dos quais foram mais tarde importantes no estabelecimento da Maçonaria do Rito Escocês na Carolina do Sul: Isaac Da Costa Sr., D.I.G. para a Carolina do Sul; Abraham Forst, D.I.G. para a Virgínia; Joseph M. Myers, D.I.G. para Maryland; Barend M. Spitzer, D.I.G. para a Geórgia.

Moses Michael Hays — um judeu sefardita de origem holandesa — é uma das figuras mais fascinantes desta história: ele recebeu os graus de Francken e foi o principal veículo de sua disseminação pelo litoral americano. O papel dos judeus sefarditas das Antilhas na transmissão dos altos graus para a América do Norte é um capítulo ainda insuficientemente estudado da história do REAA.

Da Costa retornou a Charleston, Carolina do Sul, onde estabeleceu a "Sublime Grande Loja de Perfeição" em fevereiro de 1783. Após a morte de Da Costa em novembro de 1783, Hays nomeou Myers como seu sucessor. Junto com Forst e Spitzer, Myers criou corpos adicionais de alto grau em Charleston.

Esta rede de Charleston — fundada diretamente nos graus que Francken havia transmitido — seria o núcleo do qual emergiu o Supremo Conselho de 1801.


O Elo Perdido: Do Sistema de 25 para o Sistema de 33

Quando o Supremo Conselho de Charleston foi fundado em 31 de maio de 1801, ele não adotou simplesmente o sistema de 25 graus de Francken/Morin. Acrescentou oito graus novos para criar um sistema de 33. Os fundadores do Rito Escocês Antigo e Aceito ampliaram esse sistema, introduzindo oito novos Graus e sobrepondo ao de Príncipe do Real Segredo, transformado no Grau 32, as funções do Soberano Grande Inspetor Geral, 33° e último Grau da Ordem.

O sistema original de Francken termina onde hoje está o grau 32°. Os graus 26° a 30° (na numeração atual) foram acrescentados na transição — e o grau 33° foi criado como grau administrativo de supervisão. A cadeia genealógica é portanto:

Graus 4°-25° de Morin/Francken → absorvidos como graus 4°-32° do REAA (com renumeração e expansão) → encabeçados pelo grau 33° criado em Charleston.

Os rituais deste manuscrito representam sua forma autêntica no nascimento do Rito Escocês, antes de serem modificados por Carson, Gourgas, Yates, Pike, etc.

O Significado Ritual: O Que os Manuscritos Revelam

A análise comparativa dos Manuscritos Francken com os rituais modernos do REAA revela algo fundamentalmente importante sobre como a tradição evolui.

A principal diferença é que há um arco narrativo maior nos rituais com uma conexão mais clara com os três primeiros graus da Maçonaria. Os rituais de Francken são mais diretamente conectados à lenda de Hiram e à tradição do Craft Masonry — o que se perdeu parcialmente nas revisões subsequentes de Pike e outros.

Muitos elementos do ritual de Francken, em forma modernizada, continuam fazendo parte do ritual atual. Após a abertura e recepção, o exame revisava as palavras, sinais e lições dos graus precedentes da Loja de Perfeição. Isso era seguido pela investigação confessional, a obrigação, a unção, a apresentação do anel, o juramento de amizade ou aroba, um compartilhamento simbólico de pão e vinho, e a investidura. Não mais em uso está a conferência histórica que traçava a história de Israel desde o reinado de Salomão e uma história lendária da Maçonaria até as Cruzadas e os Cavaleiros de São João — que representava dois terços das 39 páginas manuscritas que Francken dedicou ao 14°. 

Este exemplo do 14° é revelador: o Francken original dedicava dois terços do grau mais longo (39 páginas!) a uma narrativa histórico-lendária que conectava o Templo de Salomão, o exílio babilônico, e as Cruzadas numa única linha contínua. Pike cortou a maior parte desta narrativa e reescreveu o grau com foco filosófico. O que se ganhou em coerência filosófica, se perdeu em continuidade histórica.

A escada mística — símbolo central do grau 30° (Cavaleiro Kadosh) no REAA moderno — aparece nos Manuscritos Francken já associada ao 24° grau: o estudioso Alain Bernheim encontrou evidências de que este grau, completo com uma ilustração da escada, originou-se na França em 1750. O Manuscrito Francken de 1783, que data de 1783, também inclui uma ilustração da escada com o texto do 24° grau, então intitulado "Grande Cavaleiro Eleito do Kadosh ou Cavaleiro da Águia Branca e Negra".

Isto significa que o grau 30° moderno do REAA — o Cavaleiro Kadosh — estava originalmente na posição 24° no sistema de 25 graus, e carregava a mesma escada simbólica que ainda hoje é seu elemento central.


A Proveniência do Manuscrito de 1783: Uma História de Custody

A história da custódia do Manuscrito de 1783 é tão fascinante quanto o documento em si.

Muitas pessoas que ouviram falar do Manuscrito Francken de 1783 presumem que o Supremo Conselho o possui desde sua criação em 1813. Na verdade, foi somente em 1935 que o Supremo Conselho passou a possuir o manuscrito.

Por mais de um século após a fundação do Supremo Conselho da Jurisdição Norte, o documento mais importante de sua história estava em mãos privadas. A primeira menção conhecida de um Manuscrito Francken foi publicada em 'The Freemasons' Monthly Magazine', Londres, 1 de agosto de 1855. Um correspondente descrevia um curioso livro manuscrito que havia encontrado — e historiadores maçônicos demoraram décadas para identificá-lo como um Manuscrito Francken.

O manuscrito chegou à Escócia através de Frederick Broughton, iniciado em 1855, que provavelmente o adquiriu logo após sua iniciação e o trouxe de volta à Grã-Bretanha. Parece que Francken preparou e provavelmente vendeu esses manuscritos a Oficiais Britânicos, já que todos terminaram na Grã-Bretanha, a maioria passando pela Escócia — eles não permaneceram com as Lojas de Perfeição. Francken, portanto, comercializava cópias de seus rituais como uma fonte de renda — e estas cópias acabaram migrando para a Grã-Bretanha com os oficiais coloniais que retornavam.


A Publicação Sancionada de 2017



Em 2017, o Supremo Conselho da Jurisdição Norte dos EUA publicou a edição sancionada e definitiva do Manuscrito de 1783 — um volume de 720 páginas contendo facsímile fotográfico completo, transcrição anotada e três ensaios introdutórios. Esta obra magnificamente apresentada permite que os leitores vejam com clareza o que poderiam ter encontrado há quase 250 anos.

Esta publicação representou um gesto de transparência histórica notável para uma organização cujos rituais eram considerados secretos: ao publicar a forma original dos graus, o Supremo Conselho revelou tanto as origens quanto a evolução da tradição. O que torna isso tão importante é que são os precursores do Rito Escocês em sua forma mais original, antes que Carson, Gourgas, Yates, Pike e outros colocassem as mãos neles e começassem a reescrever.


Albert Pike e a Transformação dos Rituais de Francken

Nenhuma análise dos Manuscritos Francken seria completa sem abordar a figura de Albert Pike (1809-1891) — o grande arquiteto da versão moderna do REAA — e sua relação com a herança de Francken.

Pike recebeu os rituais do REAA nos anos 1850 e passou décadas reescrevendo-os completamente. Sua obra monumental Moral e Dogma (1871) é essencialmente um comentário filosófico expandido aos graus que Francken havia transcrito. Mas Pike transformou profundamente os rituais em si, não apenas os comentou.

Pike elaborou grandemente e apresentou em forma mais dramática toda a série de graus, e em essência seu ritual foi o adotado após a União de 1867 e usado nesta jurisdição por mais de um século. A revisão de Pike trouxe profundidade filosófica considerável — especialmente nos graus herméticos e gnósticos — mas também truncou muita da narrativa histórica que Francken havia preservado.

Os rituais deste manuscrito representam sua forma autêntica no nascimento do Rito Escocês, antes de serem modificados por Carson, Gourgas, Yates, Pike, etc. Na medida em que os rituais possam ter mudado em qualquer jurisdição, todos devem sua existência aos rituais deste magnificente documento.

O debate entre os puristas que preferem a versão de Francken e os que defendem a elaboração de Pike continua vivo na Maçonaria contemporânea. Nas palavras do ex-Soberano Grande Comendador da Jurisdição Norte Melvin Maynard Johnson, citadas criticamente por um historiador maçônico: "Se o tempo chegar em que o Rito Escocês determine permanecer estático, quando sua filosofia não possa ser ajustada às necessidades de um mundo em mudança, então será a hora de suas exéquias. Até então, seus líderes nunca devem abandonar o estudo da filosofia de seus ensinamentos rituais que, por reconstrução e revisão, possa manter-se na vanguarda da civilização avançada."


A Rede Sefardita e o Papel dos Judeus na Transmissão

Um dos aspectos mais insuficientemente reconhecidos da história dos Manuscritos Francken é o papel central que judeus sefarditas desempenharam na transmissão do sistema de altos graus para a América do Norte.

Moses Michael Hays, que recebeu os graus de Francken em Nova York em 1768 e se tornou o principal veículo de sua disseminação, era descendente de judeus sefarditas holandeses. Os quatro Inspetores Deputados que Hays nomeou em 1781 — Da Costa, Forst, Myers e Spitzer — tinham origens similares. Isaac Da Costa, que fundou a Sublime Grande Loja de Perfeição em Charleston em 1783, era sefardita.

Esta rede sefardita — comerciantes cosmopolitas com fluxo livre entre as Antilhas, a América do Norte e a Europa — foi o principal canal de transmissão dos altos graus do mundo francês para o mundo anglófono. Sem esta rede, os rituais que Francken havia copiado em Kingston poderiam ter permanecido confinados às ilhas do Caribe.


O Legado: De Francken a Charleston, de Charleston ao Mundo

A linha genealógica é clara e documentada:

Bordéus (1743-1761) — Morin funda a Loge Parfaite Harmonie e acumula acesso aos hauts grades franceses.

Paris (1761) — Morin recebe patente como Grande Inspetor do Novo Mundo.

Kingston, Jamaica (1763-1769) — Morin transmite o sistema a Francken. Francken começa a transcrever os rituais.

Albany, Nova York (1767) — Francken funda a primeira Loja de Perfeição na costa leste americana.

Nova York (1768) — Francken nomeia Moses Michael Hays como Inspetor Geral Deputado.

Philadelphia e Charleston (1781-1783) — A rede de Hays establece as primeiras estruturas do Rito no sul dos EUA.

Charleston (31 de maio de 1801) — Fundação do Supremo Conselho, "Mother Council of the World", integrando e expandindo o sistema de Francken de 25 para 33 graus.

Todos os corpos regulares do Rito Escocês hoje derivam sua herança deste corpo. Subsequentemente, outros Supremos Conselhos foram formados em Santo Domingo em 1802, na França em 1804, na Itália em 1805, e na Espanha em 1811.

O Rito Escocês Antigo e Aceito — hoje praticado em dezenas de países e centenas de jurisdições em todo o mundo — remonta diretamente aos cadernos manuscritos que Francken preparou em sua casa em Kingston no final do século XVIII.


Síntese: O que os Manuscritos Francken Nos Dizem Sobre o REAA



Os Manuscritos Francken revelam verdades fundamentais sobre a natureza do Rito Escocês que muitas vezes são obscurecidas pela aura de antiguidade que envolve o sistema:

1. O REAA é uma criação histórica datável e localizada. Não emergiu das brumas do Egito Antigo nem dos Mistérios de Elêusis, mas de um ambiente específico — a Maçonaria de hauts grades francesa dos anos 1740-1760 — e de pessoas identificáveis: Morin, Francken, Hays, Da Costa.

2. O sistema original era de 25 graus, não 33. Os oito graus adicionados em 1801 em Charleston foram inovações — criações deliberadas de um grupo de maçons que buscavam organizar o caos de graus dispersos.

3. Os rituais sempre estiveram em evolução. Francken completava graus que Morin não havia finalizado. Carson, Gourgas e Yates revisaram os rituais de Francken. Pike reescreveu quase tudo. As revisões de 1979-2000 atualizaram Pike. A "tradição" imemorial do REAA é uma construção que se formou ao longo de décadas de trabalho criativo consciente.

4. A diversidade cultural foi um elemento constitutivo desde o início. O sistema foi transmitido por um francês (Morin) a um holandês (Francken), que o transmitiu a judeus sefarditas (Hays, Da Costa), que o estabeleceram numa colônia inglesa (Charleston). Esta pluralidade está inscrita no DNA do Rito.

5. Os Manuscritos Francken são a âncora histórica mais confiável que temos. Enquanto as "Constituições de 1762" e as "Grandes Constituições de 1786" são em grande parte falsificações ou documentos de autoridade retroativamente construídos, os manuscritos de rituais são registros diretos de práticas vivas — e este é precisamente o seu valor inestimável para a história e para a prática contemporânea do Rito.

 

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